Poetas ou náufragos?

Poetas ou náufragos? (parte I)


 


Um poeta não escreve,
um poeta sente necessidade de deixar sair as suas aflições pelas palavras,
ser a força que arrebata ou inquieta.
Um poeta é descomandado por um sonho não crente ou entendível,
pela realidade,
pela paixão,
por nada e por tudo,
pelo desamor mais do que o amor.
Um poeta é uma mistura de pólenes raros e comuns.


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Poetas ou náufragos? (parte II)


 


Um poeta não tem posição para dormir enquanto não naufragar no seu porto do mundo,
os versos de um poeta são um momento,
são o raio antes do trovão,
são segundos, deslocação e remoção.
O trovão é o efeito das eloquentes e imperceptíveis interpretações dele mesmo, no seu id, ego e alter-ego espelhado, abrangente, descoincidente às vorazes sanguessugas do entendimento linear como se quer, mas, disruptivo como é.


Um poeta não é a poesia.
A poesia são os poetas todos.


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Poetas ou náufragos? (parte III)


 


Um poeta é quase sempre visto como um lírico sonhador que vive num mundo irreal?


Mera fantasia de quem quer entender a poesia antes do poeta.
um poeta jamais saberá se o é, foi, ou será, porque o estado mais próximo dessa certeza é a loucura da sua dúvida,
o entendimento de si próprio como ser isolado no sentir é inexistente,
se, se torna altruísta é um mero e soturno acaso.


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Poetas ou náufragos? (parte IV)


 


O sonho pode-se materializar pela força do desejo?
Sim, não, talvez, com certeza, algures, provavelmente, quiçá,
a força de acreditar não é uníssona ou bilateral,
a força do trabalho, sim,
a força do desejo, não,
o tango é seduzido pela nota seguinte à sétima do acorde e pelo olhar, é encantado pela diminuta da escala, pela voluptuosidade da divisão do silêncio, é nota maior no espaço e encantamento na menor,
as mãos dadas são adúlteras e desentendidas, depois de semanas dadas são doadas.


É a dança do conjunto dos elementos que nos forja: ar, fogo, terra, água.


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Poetas ou náufragos? (parte V)


 


Ar pela descrença assimétrica do céu,
Fogo pelo metafórico inferno e pecado praticado em vida,
Terra no desenhado das raízes e crepúsculos vigentes, por um conto de adamastor convertido em boa esperança depois de dobrado o bojador,
Água pela imensidão dos terços dela representada no planeta e no metabolismo humano.


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Poetas ou náufragos? (parte VI)


 


Ser poeta não é ser sonho,
ser sonho sim, é ser poeta,
a poesia é como a matemática,
o quadrado é sempre a raiz elevada de si própria,
tudo o que alcançámos antes foi sonhado,
o milagre do alcance do sonho está no querer do que somos,
na metamorfose da quimera.


A magia está no alcance da superação,
Está na ressurreição,
Está na desambição,
Está no agradecimento.


Somos poetas ou náufragos?


 

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