Confissão

Nas margens da minha infância fui feliz.

Na isenção do certo ou errado, da verdade ou da mentira, do pecado ou da salvação, apenas me preocupava sarar as feridas dos joelhos e que o peixe do rio me continuasse a reconhecer.
Con...fesso que também falei com os peixes como o confessor franciscano. Uns de um rio, outros de um mar. Nas encostas da felicidade esculpi para sempre o meu desígnio. E nada havia a confessar, tudo era límpido e inocente. Foi o conceito de culpa, de remorso e os seus afluentes, que me castraram a inocência da liberdade, mais os anos a eles somados.
A culpabilização dos outros na minha vida, as angustias e as ansiedades, deram-me o entendimento sofrido e já não virgem, do quanto eu era libertino e não livre.
Dói, esta perca analfabeta de consciência. Então reconheci o meu pecado e o teu perdão. E fi-lo com palavras pronunciadas e suaves. E fi-lo com rancor. E fi-lo com desilusão. E fi-lo com culpa e solidão. E a cada maré o mar ensinou-me que cresce na foz e acaba num outro mar. E a madrugada ensinou-me que começa e acaba com a noite.
Todos eles me confessaram o ensinamento que precisei. O sol queimou-me a pele e a chuva enxaguou-me o sal dos olhos.
E eu?
Eu fiquei irresistente quando soltei o meu corpo e o deixei ir, e o vento escutou o meu poema … confissão.

Confesso sem deus a quem confessar,
E alvitro feito oração,
A tempestade, a bonança, o pecado,
Deus e o pagão,
De não saber quem sou,
Onde estou,
Intenção.

Confesso sem deus a quem confessar,
A luz e a escuridão,
Bocados de noite,
Restos de ti,
Pedaços, fragmentos, metamorfoses,
E a bola que arde é neve,
E a neve uma fogueira,
E a boca? As mãos? Os beijos? Os corpos?
Não são substância de confissão.

Confesso sem deus a quem confessar,
Às palavras eternas,
Aos amigos,
A esta orgânica forma de sentir,
A este renascimento.

E, desta confissão, me confesso.

 

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