De Abril para Maio

Sobraram duas cores da velha casa abandonada. A cor da ruína que os anos emprestaram e o azul Alentejo das portas, das janelas, e da faixa pela cintura da casa, que teimam sobreviver esperançosas à ruína.


 


Ainda os tempos se encharcavam da ceifa, e as mulheres murmuravam canções que tornavam os seus dias menos ausentes dos filhos, e sufocava a dor da desigualdade retida nas suas gargantas, já as ruínas edificavam as suas emoções.


 


Ao longe, o sol escaldava o trigo e dava-lhe parecenças com o oiro.


 


As ruínas do tempo envelhecido e o azul Alentejo resistente decidiram misturar-se com a esperança e a liberdade, enternecidamente cantada pelos poetas, e por Baleizão.


 


No largo, a água cantarolava na fonte e, fresca, escorria em pranto na solidão das palavras amarrotadas pela imposição do silêncio.


 


Depois, houve Abril.


Depois, Abril partiu.


Depois ainda, Abril já não tem Abril dentro, e Maio está amordaçado.

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