Sou semente misturada na terra regada com a chuva de Maio
As lágrimas que caem do céu são boas para as entranhas da terra, misturam as sementes que faz o pão e os amigos.
A chuva faz-me bem. Faz-me pensar. Enrolado no meu sítio fico atolado de pensamentos. Penso em mim. Penso na minha infância e nas tempestades só minhas. Penso no cheiro das torradas de domingo à tarde. Penso nos primeiros acordes que dedilhei. No amor que ganhei à música. Nos meus primeiros gostares. Nas minhas primeiras mentiras e desilusões. Na raiva lenta e maligna que comecei a sentir. Na inadequação silenciosa. No medo mascarado de fortaleza.
Hibernei.
Vivi mais de uma mão cheia de anos sem me lembrar, ou querer sequer recordar. Recordo somente os cheiros e as sombras, e o meu desamor em plenitude. Não me lembro de dez anos ou mais. Não me lembro de ontem ou de anteontem. Sei que estive em Marraquexe, Amesterdão e Lisboa. Sei que fui à praia em noites cerradas de breu. Sei que tive sexo com sombras, bebi e fumei. Dormi ao relento, viajei sem dormir e caminhei adormecido. Chorei para a lua e sorri para o sol. Chorei por dentro. Fui preso e solto. Dormi num degrau. Ainda me sinto preso … à liberdade. O estar é discutível, mas é meu.
Sou semente misturada na terra regada com a chuva de Maio.
Sou Setembro, pôr-do-sol, regresso, passado e futuro.,
Sou mudança, pai, filho e alma,
Sou solidão, companhia e esperança,
Sou o que sou, pelo que fui,
Sou medo e fé, desamor e amor,
Sou insubordinado e respeitoso, recordação e lembrança,
Sou duro e meigo, uma besta e bestial,
Sou poesia nas noites e prosa nos dias,
Sou de ser.
No maremoto dei à costa e salvei-me. O mar devolveu-me à terra. Não deixei de saber nadar. Aprendi a andar no tempo da chuva.
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