Palavras por ver o sol um dia_XIX

… Depois, a terra ficou vermelha e o mar rubro, rubro de um vermelho tão encarnado que deixou de se ver o sol. O céu estonteou e os bandos de pássaros ficaram desnorteados. Sem norte. Sem rumo.


 


Na eira escondida da encosta a terra como que sangrava pedindo chuva que a não escutava. Tinham decidido as nuvens punir aquele pedaço de gente, de um mal qualquer que não adivinhavam. Depois da tempestade de há três noites anteriores que o inferno tinha tomada a aldeia. Somente as crianças não sentiam a mudança, somente as crianças continuavam a sua vida sem alguma alteração. O padre defendia ser castigo divino, o coveiro defendia que os mortos tinham desaparecido, e as crianças não entendiam o que todos desentendiam, afinal tudo estava igual para eles, tudo estava diferente para todos.


 


O céu carregou-se de chuva e as nuvens inundaram a eira, o adro, a rua de cima e a rua de baixo. Choveu mais dias do que noites. O cansaço adormeceu a aldeia. Quando o sol empurrou as janelas de todas as casas e todas as pessoas regressaram à aldeia, o mar voltou a ser celeste, o céu voltou a albergar os pássaros e, na eira, a terra já não sangrava.


 


Aconteceram duas existências numa vida. Foi um delírio azul e colectivo, duas existências na mesma vida…”

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