Palavras de um personagem de: - “Palavras por ver o sol um dia XXIV”

Chove pouco mas certinho. As lágrimas que caem do céu são vida para as entranhas da terra. Misturam as sementes. A chuva a mim também me faz bem. Faz-me pensar. Enrolado no meu sítio fico atolado de pensamentos. Penso em mim. Penso na minha infância e nas tempestades. Penso no sabor das torradas de domingo à tarde que a minha mãe preparava quando vinha da bola. Penso nos primeiros acordes que dedilhei. O amor que ganhei à música. As primeiras palavras que escrevi e os primeiros números que somei. Penso naqueles três ou quatros amigos. No meu professor da primária.



Penso na aventura que foi as minhas primeiras saídas à noite. Os meus primeiros amores. As minhas primeiras desilusões. Na raiva lenta e maligna que comecei a sentir. Na inadequação silenciosa. No medo mascarado de fortaleza. Nas minhas primeiras férias sozinhas, já não me lembram.


Hibernei.


Vivi uma mão cheia de anos, sem me lembrar, ou querer lembrar-me sequer. Recordo cheiros e sombras. Não me amei ou amei. Não me lembro de dez anos ou mais. Não me lembro de ontem ou anteontem. Sei que estive em Marraquexe, Amesterdão e Lisboa. Sei que fui à praia. Sei que tive sexo com sombras, bebi e fumei. Dormi ao relento e viajei sem dormir, caminhei adormecido. Chorei para a lua e sorri para o sol. Chorei por dentro. Fui preso e solto. Dormi num degrau. Comi o que os outros não comeram. Continuo preso à liberdade. Outras vezes estou livre na prisão. Pelo menos sinto-me. Estar é discutível, mas é meu.


Sou semente misturada com terra regada com a chuva de Maio,
Sou Setembro,
Sou pôr-do-sol, sou regresso, sou passado,
Sou futuro,
Sou mudança,
Sou Pai,
Sou filho,
Sou Alma,
Sou amigo,
Sou solidão e companhia,
Sou esperança,
Sou o que sou, pelo que fui,
Sou medo e fé,
Sou desamor,
Sou Amor,
Sou insubordinado e respeitoso,
Sou recordação, sou lembrança,
Sou duro e meigo,
Sou uma besta e bestial,
Sou poesia à noite e prosa de dia,
Sou acima de tudo Ser.


No maremoto dei à costa e salvei-me,
O mar devolveu-me à terra,
Não deixei de saber nadar e aprendi a andar com a chuva.



 


 

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