Resta-me sobreviver com menos luz
Agora que passaram alguns dias mas que já ninguém se lembra, arrisco-me a falar da morte, da horrível palavra enterro, da expressão incompreensível: - “festejo fúnebre”, da saudade, das lágrimas já secadas, dos dias de direito a gozo profissional denominado: - “dias de nojo” e de o corpo a caminho da transformação de ser vivo para defunto, a tombar para o esquecimento. Depois, pode então ser cremado ou incinerado como lixo, que é o que a carne é.
Estou agora em condições de chorar, celebrar a tua alma, essa sim, vida para além da morte, essa sim, recordação cristalizada em mim, essa sim, a nascente da saudade que não se apaga ou diminui, que cresce comigo feito do teu tempo e ausência.
Agora que já ninguém se lembra, continuo incompreensivelmente há procura dos desígnios de deus na nossa vida, mesmo ateu, dá-me jeito responsabilizar alguém que não a vida, pela morte.
Agora que já ninguém se lembra e já tudo chorou, e toda agente desejou o: “descansa em paz” via estrangeirismo (RIP), e se argumentou acerca das estrelas no céu, cabe-me a mim purgar esta não-aceitação da ausência.
As estrelas não cresceram no céu, as estrelas são as mesmas ou menos, e a luz é mais baça, tanto na terra como no céu.
Resta-me sobreviver com menos luz.
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