Um dia seremos uma história de verdade, com sujeito e predicado.
Aproximei-me lentamente. Calmo, frio e lúcido. Já antes o mar invadira o paredão, e a lua sobrava à janela. As trocas de sílabas ajustavam os nossos gostos. Líamos o mesmo autor. Ouvíamos o mesmo compositor. Mesmo sem estar nos mesmos sítios encontrávamos-nos regularmente e, olhávamos as mesmas estrelas. Falávamos dos sítios que haveríamos de visitar. Sonhávamos juntos em camas separadas.
O firmamento iluminava o nosso astral. O mundo parecia-nos parado quando nos juntávamos. Falávamos de verdades benditas misturadas com as mentiras do sonho. Os cheiros, as mãos e o olhar ligavam a nossa existência. A nossa imaterialidade era soprada pelo vento, que fazia lá fora e nos adornava.
Os vidros das nossas janelas humedeciam por estarmos quentes. Trocávamos música e poesia nos silêncios. Trocávamos quadros, pareceres e amigos. A vida semi-encantada tornou-se real, assim como real se tornou o sentir do encantamento. Esperávamos pelas trocas, horas e dias-a-fio. A música foi a companhia do nosso trajecto. Fomos conduzidos, ouvidos e escutades.
Um dia seremos uma história de verdade, com sujeito e predicado.
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