já não posso, mas posso
Já não posso com o cair da noite nem a enxurrada nascente dos teus olhos. Já não posso com os verbos no tempo perfeito, pretérito e condicional. Não posso com o dia de hoje que não se imobiliza, nem com o de ontem que não ficou por cá, nem com o que tarda em vir e que morrerá como todos os anteriores.
Posso com o livro que tenho entre olhos, entre mãos. Posso com todo o amor escondido em mim por um muro construído de ar distraído. Posso com tantas coisas que não sei poder. Posso com o refúgio do meu pedaço moreno de mar a sul. Posso com a saudade. Posso com os dias acabados prontos a serem recomeçados e o desconhecimento de cada um deles em mim.
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