desentendimento do tempo
A vida separa-nos sem que façamos nada por isso. Quando se experimenta a saudade existe porventura existência, e, é disso mesmo que sinto a falta, de existir.
Saudade da época em que habitavam músicas nas pessoas, perfumes e serões nas estações, esperança nos sonetos que me endiabravam a alma e a descoberta do sonho e da vida incluídos, pela espírito e o alento.
O sonho jamais termina se me recusar a apodrecer de conceitos e ideais. Pese embora os sonhos amadureçam com a minha existência, a entidade que os regula amadurece igualmente comigo.
Os canaviais já não são bravios como outrora, já não faço amor entre as giestas nas quintas-feiras das eiras e da ascensão, quarenta dias precedentemente da páscoa, onde o feno ainda fresco não secara. O corpo já não me deixa. O corpo já perdura uma manhã soalheira de sequeiro a fortalecer.
O mundo mudou de forma e a forma. Já não existem arco-íris que se acreditem ser os sorrisos do céu. Agora tudo se tenta explicar.
Tenho saudades do desentendimento do tempo. Da ingenuidade de não saber do vento, dos caminhos e da desvirgindade.
O ajuste da melancolia fez-se por ela própria, sem eu dar conta da mágoa que foi rasgar a minha cegueira, com as estrelas e o luar.
Agora já não há juízo, nem tempo.
Agora, somente existem fragrâncias do que a vida separou de mim, sem eu dar conta dessa separação.
Agora existem mil pecados por perdoar, mil verdades de sentenças por ordenar, madrugadas por inventar e as noites que sobram para recordar.
As tuas mãos já não me afagam mais a vida. O que era queixume é agora incendiado o meu coração, vertendo-te homenagem em sonho e em saudade
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