Maria do Cabreiro
A janela embaciada faz-me adivinhar o tempo. Está frio e na minha face sucumbem dois olhos fundos, esperando uns raios de sol extravagantes e inesperados. Sinto-me fraco. Fisicamente sinto-me em fase de ajustamento. Espero que o meu metabolismo faça as pazes comigo. As mãos não obedecem ao comando e no meu peito fere a incerteza.
A Maria do Cabreiro curandeira ancestral recomendou-me chá de erva do ribeiro, uma mistela que diz ela que ressuscita até o inverno em pleno verão. Oiço na estrada grande afastada daqui, o respirar dos motores que se debatem recta acima. Os miúdos dançam e debatem-se debaixo da arcada do prédio em frente. Felizes. Cheira a rosas o ar, pronuncio de névoa que caíra na certa pela noite dentro. As luzes trémulas começam a acender-se quando o dia cai. Entre o tórax e o fígado, os rins e os pulmões existe uma revolução em mim.
Já tomei o chá da Maria do Cabreiro e descanso agora um pouco. Amanhã outro dia romperá augurado de uma nova e incandescente aurora, repetitiva, mas diferente. Sempre diferente. Amanhã eu sou diferente. Já ontem o fui e serei consecutivamente até ser existência. A existência jamais deixará de o ser. A voz habita toda a poesia. Recolhimento é pensamento, pensamento é palavra, palavra é subsistência.
Acompanham-me os sonhos, encho-me da realidade e do que vivo. Subi num avião, voei, aterrei, e sou outro, o mesmo renovado talvez.
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