deus

Às vezes apetece-me morrer, outras vezes não. Ninguém está preparado para morrer antes de perder a memoria e, esta, segunda consta, perde-se de trás para a frente, enquanto a vida se perde, de frente para trás.




Não se parte enquanto se tem amigos. Parte-se, quando se muda de consciência. Partir este figurado, transfigurado, cadáver de dor solta, desprezado e silencioso. Quando a energia nos dá alento e os livros conhecimento, parte-se de quem fica desconhecido. Não é uma partida de partida, é uma âncora desamarrada, um ir leviano aos olhos de quem fica, aventureiro e sedento de quem parte.




A partilha diminui o infortúnio. O infortúnio deixa de o ser quando aos amigos já não interessa ser afecto, mas apenas existir aos vocábulos. Acredito na verdade relacional mais do que na fantasia relacional da verdade. O sentir é fugidio, mas quando adiado, esfuma-se como um uivo de um lobo, em prol de gargalhadas desculpadas de um “agora não me apetece falar/sentir disso” e desfazem-se assim as palavras, em ironias breves, como escalpes adiados do coração.




A minha relação com deus é muito conflituosa e enraivecida umas vezes, e resignada pela indiferença e a não compreensão, outras vezes também. Sinto-me por vezes grávido, esse estado de graça onde as ideias e os sonhos fervilham, como uma preparação para a mudança. Sinto me grávido nas mãos, na cabeça, no peito, nas decisões, nos medos e na esperança, mas nunca na fé. Tudo em mim se equaciona e resolve, é uma questão de gestação e amadurecimento, daí as minhas gravidezes e abortos fervilharem na minha conflituosidade com deus.




Destrói-se para criar e cria-se para destruir. Na verdade já não me encontro em lugar nenhum, em sítio algum me encontro, vivo ou descanso. Redesenho a minha letra e evolutivamente agito o mar.




Faço disto a poesia e aceito nos seus versos o destino.

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