excerto de palavras por ver o sol um dia VIII
“ … Acordei. Adormeci mais um pouco acordado. Este estado alienado de mim próprio ao acordar prolonga-me o sonho. Provavelmente entendo agora a expressão “sonhar acordado” ou “morrer de saudade”, talvez não seja essa a verdadeira essência da expressão, talvez seja só mais uma variante do sonho, da realidade aproximada do desejo, a realidade a aproximar-se dela própria, o sonho a transformar-se em vida, ou apenas a aceitação do merecimento da felicidade.
Tenho dificuldade em perceber de que é feito o sonho dos sonhos, de entender a vida e a felicidade, o acordado e o adormecido. Este estado de paixão enlouquece-me. Este estado de saudade adequa-me ao amor que sinto. Não os quero mais e, não quero mais que acabem.
Recebo-os de braços abertos entendendo o privilégio de sentir a minha pele na minha outra pele, emprestada por outro ser que não eu.
Recebo-os sentindo o meu cheiro revolto no teu cheiro adocicado.
Recebo-os, sabendo que esta vida pode não ser suficiente para amar assim novamente, disponibilizo-me agradecido por este amor, por esta vida, por estar pronto para ter, por estar preparado para ser e, por te ter igualmente.
Acordo. O meu dia é tudo o que o meu dia contém. O meu dia possui-te albergada nos minutos das minhas horas. Sabe-me à tua boca na minha. Sabes-me. Respiro-te. Sinto o meu corpo fundido na tua alma, a minha alma cravada na tua, e os nossos corpos soltos na madrugada carinhosa, diabólica e selvagem, descarga do nosso amor em nós mesmos.
Adormecemos na paz que construímos, embalados pela saudade morta por momentos. Na alvorada irei voltar a “sonhar acordado” ou a “morrer de saudade”. Não me importarei com isso, desde que sonhes e vivas a saudade comigo. Amo-te. E assim o sonho e a saudade se embargaram vida adentro …”
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