o medo do medo

Pouso um copo vazio de vinho bebido sobre o medo,
O medo sufoca-me as palavras como uma guilhotina dilacera o sol em angústia,
Mistura-se um género de névoa com esta condição transcendente,
Tortura-me um medo real e um outro inventado,
Desconstruo o medo em medos,
Confiro-lhes maior número e menor dimensão,
O medo maior e singular transforma-se em pequenos medos plurais,
O medo não é a minha verdade, os medos também são as minhas mentiras,
Os medos dos medos expressar-se-ão em todos os vocábulos e anoiteceres,
E em cada jorrar de sol guilhotinado.


 



Em cada tristeza colocarei flores como num túmulo e rezarei uma última vez,
A cada saudade recordarei cada lembrança,
A cada partida celebrarei cada regresso,
A cada lágrima lembrarei cada sorriso desmemoriado,
Em cada fragmento de solidão brindarei ao velho amigo que já não tenho,
O medo é o amor e a miséria exposta em mim,
O medo começa e acaba por amor,
O medo subtrai o amor,
O amor subtrai-se ao medo,
Defumo incenso na sala, pouso um copo cheio de vinho por beber, sobre o medo.


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