Palavras por ver o sol um dia XII_XV
Estou encantado.
Este estágio para lá do encantamento está para o meu sonho, como a vida está para mim.
Encanta-me o cheiro bravio que possuis em ti toda, inteira, e por inteiro.
Encanta-me o doce das tuas mãos na minha pele. Os teus lábios desnudados nos meus no prolongamento de mim mesmo. Não existe maior prazer do que sentir alguém que me faz sentir ser, o prolongamento de mim próprio.
Encanta-me a difusa luz que me cega.
Encanta-me querer a universalidade do momento na soma dos momentos.
Encanta-me a melodia das tuas palavras, o sossego do teu peito, o fogo do teu corpo, o sorriso da tua boca.
Encanta-me tudo isto em mim, e, em mim tudo isto é: o sonho tornado vida.
Encanta-me os meus órgãos descompassados em desobediência de mim apropriado, como se tivessem vida própria e independência. O fígado parece-me existir no local onde antes estavam os rins, o coração parece-me ser a traqueia, os joelhos parecem-me capazes de pensar o trilho. Sinto tudo isto em cada poro, em cada pedaço de mim revisitado.
Encanta-me saber que sou um ser de mim, e sentir-me em plena observação de mim mesmo, do lado de fora do meu próprio ser.
Encanta-me não me interessar pelo desinteressante e não querer saber do tempo. O meu tempo agora és tu, e tu és o agora.
Encanta-me a vil e pacifica desconstrução do sentir. Encanta-me o encanto da dormência.
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