A loucura perdoando-se a ela própria. (Excerto de um capitulo Cardílium_II
“…A loucura perdoando-se a ela própria. (Excerto de um capitulo Cardílium_II)
“… Ténue, esta fronteira entre a loucura e a vida dos outros disse eu.
Como assim disse ele sem me olhar, aquele homem com ar de mártir, de aspecto moderno por fora, cheio de amarras por decifrar.
Voltei ao meu raciocínio.
Normalmente a verdade da loucura está na normalidade do "não excêntrico" dentro de nós. É uma questão politica/social, uma questão de liberdade/liberdades, e não se vive na/com a vida dos outros, é endógeno e introspectivo, e não pode/deve ser o promontório da liberdade alheia.
A verdade da loucura não pode ser a mentira dos gostos, sonhos, ideais, ideias, paz, mar, cores, cheiros, tempo, e/ou mulheres, e nunca por nunca ser, se pode “vender” a alguém. No entanto pode ser uma noite inteira, um dia, uma madrugada, um olhar, um caminho, um luar, um bando de pássaros no céu...
É sempre um livro por abrir.
Aquele homem de ar moderno e envelhecido, de sorriso escancarado e olhos baços entendia a loucura como uma demência apregoada de um estatuto sem alicerces, entendia a loucura como uma merecida e protagonizada admiração alheia, como se quisesse ser admirado pelo ser erógeno que o espelho lhe devolvia e se resumisse a isso, a flacidez mental adivinhada.
Não se apregoa a loucura, concluí.
A loucura perdoando-se a ela própria, dissemos finalmente um ao outro … mergulhei no mar naquele dia serenamente enlouquecido, expurgando-me de um mundo "despertencido" ...”
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