Estonteadas palavras por ver um sol um dia, por verem o sol um dia (excerto) II

Estonteadas palavras por ver um sol um dia, por verem o sol um dia (excerto) II


 


“ … E assim nascido oposto e dissidente, rebenta em mim como a nascente de um rio um querer desconhecido, apetecido, outrora negado, ignorado, encantado. Encanto-me das pontes que me ligam, das margens que me abraçam. Pouco sei sobre a direção da água ou do vento, pouco sei sobre as marés, pouco sei sobre as folhas caídas deste chão de terra brava por onde me quedo e alento.


 


As estações revigoram-me a cada mudança. A chuva sabe-me tao bem quanto as noites amenas e enfeitiçadas. Solto todos os meus sentidos à debandada dos pássaros que rumam a sul. A oeste, o mar guarda as noites que me velam.


 



Gosto do chão de madeira comprida da tua casa. O chão da tua casa está afinado em ré menor, oiço-o nas passadas que dou, como a canção do Zeca: “os índios da meia praia”. O tecto da tua casa tem desenhado uma toalha de linho sem igual, tal como o céu tem as estrelas. As velhas e rangentes escadas têm escondido já o nosso amor nos degraus, o amor que fizemos como a chuva invernosa que cai chão adentro.


 


Espero, aqui neste chão onde jazo que se me aclame este rio, companhia do meu sentir na vida, albergue das minhas cinzas um dia …”


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