palavras por ver o sol um dia ... XXVII

Acordei a madrugada e levantei-me com ela. Tínhamos combinado escrever uma carta juntos, com as palavras que não me explodiram quando estiveste junto a mim. Com os socalcos de vontade que se desmoronaram na minha cabeça. Guardo as palavras para o próximo Fevereiro na Torre do Tombo. Estúpido. Estúpido é, como me sinto bastantes dias da minha vida. Bebemos café e foi-se embora.


 


Assim que saiu entrou a manhã. Vinha fresca. Tinha a frescura de quem tinha bem descansado. Enrolava nos lábios um sorriso mesclado de arte moderna que me faz lembrar, Amadeo Sousa Cardoso, esse pintor que necessito revisitar de tempos a tempos, esse homem que me dá cor às palavras, que entendo no seu traço. O teu olhar, carregava no entanto a crueldade descrita da pintura da Paula Rego. As tuas mãos. Não, os teus dedos. Esguios e habilidosos, são como os de uma estrela-do-mar, esse poema fingido do Jorge Palma. Gosto de ti, manhã. Tens sardas. Adoro mulheres com sardas. A minha mãe tem sardas. Mas isso não faz deste gostar, um gostar incestuoso. A manhã partiu de seguida.


 


Caminhei pela relva fresca da beira-rio. Depeniquei as folhas dos salgueiros que choram debruçados sobre o rio. Deitei-me e olhei o céu. Senti o mundo redondo como o vocábulo do Zeca. Senti calor ao meu lado. Era a tarde. A tarde, esse par longínquo de horas que se perdem pelo escurecer. Com a tarde não sinto nada. Sinto só e apenas, compaixão. Pena do ruído em que vive. Do bulício. Das horas intermináveis e de indetermináveis certezas erradas e erros tão certos. A tarde é uma prostituta cansada como todas as prostitutas. A tarde espera a oportunidade que a noite lhe dará. Uma prostituta é uma mulher. Uma mulher grande como a tarde, forte, atravancada de homens frágeis, descompensados, e de solidão cheia de sós. Pobres homens, os da tarde.


 


Levantei-me. O dia, soma de madrugada, manhã e tarde estava a refrescar. Precisava de uma camisola como aquela que o António Luís me fez. De malha, lilás, feita à mão. Entrei num café como antes, daqueles com fumo de cigarros amontoado, e sentei-me. Bebi chá de rosa / canela. Agora existem chás iguais com muitos nomes diferentes. O que mudou foram os corantes e conservantes. Li na etiqueta: “E” duzentos e não sei das quantas”, que já não vejo sem óculos o tamanho daquelas letras, não decifrei na plenitude.


 


A noite chegou na hora acordada e sentou-se. Desdobrou o jornal e comentou imperceptível, as notícias. Percebi Durão, Gaspar e Portas, que é a mesma coisa que não ter percebido nada. Nem quis perceber mais, que me bastou. Demorou-se na página que descrevia a vida de um sem abrigo. Disse-me olhos nos olhos: Conheço-o, vive em mim que sou noite, na praça da alegria, chama-se Jorge, dorme junto à raíz daquela árvore grande que lá existe no meio, defronte da polícia, enviesado ao Hot Club, sabes? Sei, respondi. Pedi-lhe então: não me contes as coisas que sabes da noite, noite. Não me apetece. Levantámo-nos e fomos dar um passeio em silêncio. Nós e as estrelas que, já acordadas cintilavam ténues no céu. De quando em vez ficavam encobertas por uma massa de ar que as envolvia, e que só me fazem lembrar um cobertor a aconchegá-las. Nunca me importei que as estrelas se escondessem. Primeiro, porque sei que sempre retornam. Depois, porque sempre acreditei que era como quando o meu pai me tapava e aconchegava antes de se ir deitar. Aconchegava-me e beijava-me, suave. Sempre achei que é o que as nuvens fazem às estrelas. Despedi-me da noite, abracei-a e fui. Fui perdido, ver se me encontrava na foz do rio junto do mar, e ao farol. Aquele farol seduz-me. Vejo nele um corpo de uma mulher e na luz o seu olhar envergonhado. Fui escolher as palavras que não disse. Substitui-las. Arranjar outras melhores. Inventá-las. Dizer de verdade as palavras.


 


Já é madrugada outra vez !...

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