Um homem só é um homem acompanhado dele próprio

"... Estes frios raios de sol trespassam-me mais do que o corpo, mais do que a alma. São como as palavras ensanguentadas que te deixei, são como as lágrimas dolosas que me devolveste e a raiva do entendimento da madrugada passada. Acabou. Agora sabes que a voz que te sai sem dares conta, e o olhar que presenteias sem abraço por entregar, não são vida que se viva.


 


Agora tudo está mais calmo. O mundo afigura-se sossegado e esquecido de mim.


Há quanto tempo não respirava?


Há quanto tempo não era só mais um homem no mundo?


Há quanto tempo não era só mais um homem do mundo?


Um homem filho de uma mãe. Um homem filho de um homem. Um homem pai de uma filha. Um homem só.


 


Um homem só é um homem acompanhado dele próprio.


 


Finalmente acompanhado de mim próprio. Sem mundo que se me recomende. Sem recomendação para o mundo. Um homem só é um homem se: isento. Um homem dilacerado pela voz do fado. Um homem rasgado pelo rugido interior da voz de um poeta na boca de uma mulher, um homem disfarçado pelo sorriso de uma lágrima escondida. Um homem regressado na paz da amizade.


 


Mais de vinte anos de um abraço eterno. Fez esta madrugada, concluí …”

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