Nada que pernoite património
Digo não, não quero, não vou, já não sou, não fui, alguém julga que eu sou, mas eu já não existo e nem eu já me acordo, já nem mesmo me recordo, de ser, estar, ficar, negar, ou querer. Sinto como se já não me sentisse e sentisse sem explicação. Já não me sinto sequer a sentir, e sinto que não sinto duradouro, o breve sentir já sentido.
Debruça-se inclinado sobre mim o medo, e sobre mim caem os alicerces pantanosos da construção. Tudo desaba na existência da desistência. Não me dou crédito ou confiança e, é de mim que desconfio.
Não me conheço ou reconheço, não me prendo, não me solto, e livre sou apenas solidão, e preso sou somente retiro, aborreço-me em exclusivo sobre o vento que me lava a cara, sobre a chuva e o dilúvio de sentir, que esta descoberta não terá vida suficiente para se plantar em mim.
Na escuridão da música que faço, na penumbra das palavras que me lembram o passado, aguardo em mim a revolta que calo, de não ser o homem, filho de uma mãe sem filho, filho de uma mãe sem mãe.
É entre a culpa e a mentira acreditada que espero por mais uma noite e madrugada. Espero por mais uma manhã clara. Sairei fazer o que de melhor sei fazer. Nada. Nada que pernoite património.
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