Sofazando XXIII

" ... A esta cidade chamo Dezembro. Sem sopa e pão de uma forma igual e justa. Não há alegria na avenida da Liberdade, nem liberdade na praça da Alegria. Na estrada da Luz só existem trevas, e no Calvário, estende-se a cidade inteira. Em Belém não já não existem estrelas e os astros já não sobrevoam o rio. A cidade é fria e deserta. Sem sorrisos. Não existem olhos levantados do chão. É acinzentada, da cor de solidão, Os vestidos esguios das mulheres alegram-me um pouco.


 


A cidade está desertamente edificada. Nos jardins soa inerte o perfume das acácias. Esta estranha forma de existência tem gente. A solidão parece não ser solidão, e a amizade confunde-se com presença. O amor vende-se nas esquinas apregoado nos decotes atraiçoados. Esta cidade é como dezembro na minha terra. Os anjos estão recolhidos nas tabernas das ruas curtas, na esperança parca de que a fé os torne mensageiros. A cidade, a cegueira, o escritor. A cidade recorda-me o que não me lembro.


 


A vida e a morte estão mais perto do que sempre ... "

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