Excerto de palavras encantadas de nada IV
(fala dos personagens "Val de Mar" e "É do Mundo", de um romance em construção)
“… Inverno de decisão?
Sim, inverno de decisão tomada em pleno verão. Sabes quando decides pelas palavras que não te soam, pelo olhar que não confias, quando a terra quase te prende antes do caminho, quando o sono tarda em te vencer pela culpa que sentes, quando sentes que te prostituis pela vontade que sabes errada. Sabes quando o diálogo é tão redutor que mal chegas te queres logo ir embora e te maltratas até ao orgasmo seguinte, e aí, tudo faz sentido, e o sentido que faz é partires quanto antes, tomares um banho, tentares adormecer e perdoares-te nesse sono que não te vence e choras de nojo e pena de ti próprio. Sabes quando a tua razão te esfaqueia por não decidires amar-te e tratares de ti como te sabes merecedor e, insistes em não fazeres parte do abraço que conheces, te aceita e conforta.
Não sei "Val de Mar". Não sei. Sei de mar.
Acho que o mar devia ter acesso restrito e limitado tal é as vezes que o vejo profanado e agredido, em nome da paz de espírito e do adultério. O mar não devia ser visível a todos os olhos. Não devia ser azul em todas as bocas. Não devia ter sal em todos os abraços. O mar devia ser só a alma dos navegantes, os que navegam a descoberta do peito mínimo que sente máximo. Os outros que ardam com as velas dos santuários que profanam na troca do milagre comprado pela fé que viciam.
Estamos zangados "Val de Mar"?
Não "É do Mundo", estamos a caminho de ser felizes ensaiando antes a tristeza …”
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