Extracto da uma fala de um personagem de “ A gosto”
“ … Não entendo a miserabilidade da facilidade com que as palavras são ditas, as opiniões são mudadas, a vontade transformada, a decisão vandalizada. A coerência não é um conceito idílico, é uma atitude. Jamais farei um contrato sob a forma de amor. O amor não se contratualiza, ou se serve em banquetes rodeado de gente que pactua com um facto que não tem vigência, com fatos bolorentos e cheiro a naftalina num dia para esquecer e não para lembrar. Não se celebra a hipocrisia contratando a bênção dos deuses. Não se representa a felicidade.
Que pobreza habita o amor?
Que dolo é este da falsidade do amor?
O amor são dores assentes no ombro de quem nos ameiga a alma. É a compreensão dos dias. A liberdade de ser. O amor não é a substituição terrena e individual dos indivíduos que se servem uns dos outros, pelo amedrontamento de se ser só por enquanto.
Não deveria ser o medo social infligido pela incapacidade de se dar ao próprio, o ombro na forma mais genuína e honesta que existe? - o amor-próprio -.
Só estou preparado para a divisão do amor partilhado quando me admirares pela música que não oiço, pelo que leio e não entendo, pelo que sou sem ter que ser o que não sou e, não ter que dizer que sei o que não sei e/ou gosto, de outra forma fantasio uma paz, que de paz, só tem o pensamento podre da podridão da mentira, enquanto isso, vivo das recordações por cicatrizar do teu corpo e da tua boca que quero em mim, todos os dias é contigo que eu estou, e todos os dias finjo que estou, sem estar.
Experimento assim a decisão que tomei só porque tinha que tomar, iludida que o meu deus escolhe por mim.
Sabes, não reconheço felicidade no teu olhar, a tua expressão não é de amor, os teus olhos não estão incendiados e brilhantes, sei que não, porque já te vi com luz e paz n´alma.
Agora vejo somente uma baça e enfeitada mulher, irreal e triste. É o que vejo, é o que se vê …”
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