O meu amigo íntimo
Hoje agarrei a mão do meu amigo íntimo e fui conversar para o sopé da serra que guarda a minha terra, do outro lado do mar.
Falei-lhe de saudade, de encantamento, de desilusão, de severidade, de sonho, de poesia, do luar, de nevoeiro, de compromisso, de caminho, de amor e de tantas coisas que queria deixar sair de mim há dias e dias, sem que o conseguisse.
Ouviu-me e não disse nada.
Acarinhou o certo e o errado, ambos com a mesma humanidade. Não riu, não chorou, não deixou que nada nos incomodasse no silêncio das palavras, no sentir cúmplice de bem querer.
Apenas olhamos imóveis a montanha enorme vista na perspectiva do sopé, e ambos, eu e o meu amigo íntimo, adequamos a nossa pequenez à nossa existência.
Nenhum de nós sabe nada a não ser existir. O meu amigo vê pelos meus olhos, sente pelo meu peito, caminha pelos meus pés, toca pelas minhas mãos, sente no meu sentir.
Como pode o meu amigo íntimo afastar-se de mim tantas vezes, se o meu amigo íntimo sou eu.
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