Maria Homem / João Antero
“... Se eu não sei o que sou, como sabes tu o que sou eu? Replicou o João Antero vizinho da falsidade que habitava no terceiro esquerdo e andava enrolado com a Maria Homem mulher mal-afamada aos olhos dos que não esperam nem uma lua para se calçarem dos seus passos e sangrarem como ela dos seus próprios pés.
Eu gosto da Maria Homem e não gosto do Joao Antero, toda a sua intelectualidade me cheira a ignorância, todo o seu acerto me sabe a manipulação.
A Maria Homem não. É cristalina no seu sorriso, bem-aventurada na sua alma, tem mãos de mulher mãe, todo o amor que detém ainda nem a metade vai, e já a sua vida se esgota para além de setenta anos. A Maria Homem é uma menina do tempo, não envelhece.
O Joao Antero é um homem de meia-idade, retorcido pela malvadez calculista por não ser homem, nem mulher, nem novo de idade, nem velho de tempo. A Maria tem um sorriso de mar. O Antero já nem de João se faz o seu nome, não se afigura com nenhuma forma expressa pela natureza, nem o pior terramoto ou diluvio será mais falso do que ele.
A Maria Homem cheira a terra e apetece.
O Antero que perdeu o João sabe a fel e não existe nome que se lhe adeque.
Entendes-me flor? Sim, entendo-te Mar…”
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