excerto de palavras por ver o sol um dia (152)
" … Sabes, às vezes habituo-me à ideia de que estou morto, e é terrível porque estou vivo. Habituar-me a um estado oposto aquele em que estou, é terrível. Estás a ouvir-me? Perguntei!
Respondeu-me um aceno sem olhar. Uma tristeza breve como uma labareda que ferve antes da seguinte.
Continuei.
Sabes, alturas houve na minha vida, em que mais debilitado me senti. Estava a dar os meus passos, os meus primeiros passos. Nessa época tive por perto alguns amigos, conhecidos, sugadores de energia e atenção, companhia somente talvez. Não sei. Amigos não com certeza, porque os amigos são velhos como eu, e por cá continuam de vez em quando. Eram e são, pelo que vejo ao longe, uma espécie de empresários que põem os seus peões a belo prazer num tabuleiro, em que existe um presidente, mais espertalhão do que os outros, e um vice bastante limitado. Há um terceiro, talvez o mais inteligente, mas que não está para se chatear. É um homem bom. Infeliz por dentro mas esforçado por ser feliz. Desse eu gosto até hoje. Os restantes, são a paródia do presidente e do vice. Um prestes a morrer, adia a morte a cada trimestre. O outro não fala, e um outro fala pouco. Há uns candidatos a entrar, mas não é fácil, se não houver uma aburguesada mordomia e uma odienta subserviência. Todos em sintonia abanam a cabeça na mesma direcção, homens sem memória ou opinião, de solidão entregue na folia de ser aceite. Poucos seres humanos existem aquém e além daquela desumanização em nome da fé, ajuda e querer bem, entendes-me?
Respondeu-me com outro acenar de tristeza misturado agora com um pouco de olhar, e disse-me:
- Então sentes-te morto de tão vivo que estás, ou sentes a morte esfrangalhar-se numa dor que suportas, no silêncio que carregas por gritar?
Respondi. Não sei. Às vezes habituo-me à ideia de que estou morto, e é terrível, porque estou vivo.
Era eu, o mar, o vento e o sonho, naquele vale furado..."
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