excerto de palavras por ver o sol um dia (151)

excerto de palavras por ver o sol um dia (151)

“ … Cansado de tentar esquecer-me de mim. Devo ter um enzima que me catalisa, que por muito que me esforce não me esqueço de mim, esquecer-me é lembrar-me, como me lembro, não me esqueço, disse.

Ela continuava em silêncio a remexer as ervas com um cavaco na mão, como se eu não existisse, como se eu não estivesse ali à sua frente, como se não sentisse o meu cheiro ou ouvisse a minha voz, como se não se lembrasse o que eu tento esquecer.

Continuei.

Já passei noites acordado, dias a dormir, já viajei, tentei sonhar sem sono com que conseguisse sonhar, sem matéria com que pudesse dizer, é isto, ou foi aquilo, e sempre apreendo a mesma coisa, não esqueço ou mato o que penso, porque me lembro, e as recordações são toda a minha vida por esquecer lembrada, sem que me recorde até do nome. Até dos nomes.

Continuava remexendo as ervas que se amontoavam numa pequena pirâmide geométrica e perfeita. Ela sempre fora perfeita aos meus olhos. Sempre achei que sabia todas as perguntas que fazer, digo perguntas, porque a minha ânsia já não são as respostas, que essas eu elaboro no mais perfeito teorema “pitagoriano”, a minha aflição é a composição das perguntas, são essas que me cansam na tentativa de esquecer-me o que me lembra.

Era eu, ela, o mar e a chuva, naquele vale furado. …”

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