As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz

De regresso de uma viagem de vómitos, saliva e suor. Agradeço-me a resistência. Abraço a resiliência. Tantas drogas somadas no meu corpo, processadas na mente viajada em desconhecidos caminhos, sob o medo e a euforia dos sótãos de pensões de podridão, em bairros demolidos de pessoas moribundas. Oiço descrever glamorizada as drogas que tomam jovens gestores, e a abençoada criatividade induzida no sucesso, beleza e descoberta.


Não entendo.  O que conheço é:


- A vida como impossibilidade de ser vida, a impossibilidade de a morte se transformar da morte –  


depois, há os náufragos e os sobreviventes, e o regresso da urgência de corpos desnutridos e magros, em almas incandescentes apagadas temporariamente.


Sentado de viola nos joelhos, tento compor uns versos que celebrem que fintou a vida, quem enganou a morte, quem se salvou dos estilhaços na pele com que aqui chegou.


As lágrimas lambem-me como a temperatura amena com que maio se faz.

Comentários

  1. Voila ' monsieur que sois brilhante 😋.. . Merci de quem se salvou e queria ter ouvido a música 😀.. ups

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  2. Intenso, estava nas ruas, no bairro, numa cama qualquer
    Tens esse dom, as tuas palavras são imagens, não, são fotos

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