Livro (s)
" ... pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.
Repito o movimento: pego no livro mais do que uma vez, apalpo-o, desfolho-o; olho a capa, a contracapa, leio um parágrafo desgarrado a mais de meio do livro, pouso-o.
Depois, preparo uma cadeira de plástico na minha varanda, torce-se quando me sento, ou é fragil, ou estou com peso a mais. deve ser como eu, fragil e com peso a mais.
Alinho a cadeira com a lua e dou luz à minha leitura, fico absorvido pela madrugada, leio até o dia me dar com o sol na cara e me lembrar que a noite já se tinha plantado do outro lado do mundo.
Não conseguia parar de ler, até que leio um ajuntamento de palavras que diziam:
- és no fundo tu o teu mundo, a tua líbida vontade de viver sem corpo, a mulher que vem passar a ferro e o peito avantajado pelo segredo do teu olhar, a senhora que te faz a baínha das calças, se ajoelha e te olha de cima para baixo e pergunta: "está bem assim" e eu respondo duas distintas respostas; "sim está bom" e uma outra que grita dentro de mim em silêncio que tem vontade de lhe pegar na nuca e a trazer até mim.
És afinal o Sr. que se constrói e o pensamento do que és. Há vozes dentro de mim em constante ebulição. De seguida meto ramos de alecrim em mim, deixo ferver e, purgo-me.
Não entendo em mim próprio o que em mim próprio existe -
Pego no livro, descanso-o para me descansar a mim, e adormeço até que o meu corpo me acorde.
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