excerto de palavras por ver o sol um dia (99)

"... O melhor era ele morrer disse a mãe para o pai. Prefiro vê-lo amortalhado cor de cinza do que apodrecido por aí nas bocas do mundo. Prefiro vê-lo desnascido, do que nascido assim sem tempo que o guarde, ou noite que me descanse. Prefiro vê-lo a esvair-se de vida do que morto a mover-se com todas as dores que diz ter, com todas as drogas que diz tomar. Prefiro-o morto. Mil vezes morto.


 


Já eu, amorteço-me de morte pela vergonha que sinto, pela rua que não desço e a volta maior que dou para regressar a esta casa que não vive também. Escondo-me das caras que não me quero cruzar, escondo estes olhos negros de atentar a morte ser mais morte todos os dias um bocadinho.


 


Preferia vê-lo morto, já te disse Francisco, morto. Morto de uma morte que fosse choro o resto da minha vida, pelo menos podia tapar-me escondida num véu negro e nunca mais ninguém me veria este olhar que já não vê, esta boca que já não aguenta mais palavras, estes braços que já não seguram nenhuma esperança e se revoltaram com deus.


 


Olha Maria, já eu, prefiro que seja deus a tomar conta disso, e olha que ele nunca me faltou. Sabes, não, não sabes, nem vais entender, mas eu acho que ele se está a fazer homem, e está quase quase a entrar por aí, despertado do homem que sei que vive dentro dele. Está a procura-lo. Sei disso. Vi-o chorar quando a filha nasceu, eram lágrimas, era amor. Quem sente amor, ainda não morreu, está vivo. Ainda há homem dentro dele. Tem mais um bocadinho de paciência, não tarda entra por aí.


 


20 anos depois.


 


Passei por ele. Está lindo. Já nem me lembro do homem que morreu, da morte que afinal o matou, tinhas razão, a morte matou-o com vida, é outro..."

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