val de mar furado
“ … Não sou a perfeição que disseste que eu era e que jamais acreditei ser. Não sou a imperfeição que dizes eu ser agora, porque o agora não existe depois destas palavras escritas, agora já é passado, e a imperfeição mais evoluída e menos imperfeita.
Não sou o sol que dizias ver nascer em mim ou subir o dia comigo, muito menos sou o sol que vias desaparecer em aplauso.
Sou apenas a pele queimada pelo tempo, a miséria fecundada de passado, a tristeza misturada com as noites de cheiro a álcool, e a tentativa de fugir daquela rua de mulheres com decotes distraídos, e peitos que são como portos onde atraco a fadiga e me deixo sossegar.
Não sou nada do que me escreveste, nem tu és nada do que espalhas em nome do amor, és a tua própria masmorra, e a prisão de quem te crê.
Eu sou um val de mar furado pelas ondas de regresso à cidade, depois de deixar malmequeres na campa que te perpetua …”
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