val de mar a endireitar-se com a vida
" ... Já é mais do que madrugada no país de onde vim. Aqui, ainda o sol se põe dentro do mar e as poetisas esperam a inspiração que lhes pode valer um sono em sossego.
As ruas não estão desertas nem povoadas. Tudo é final de dia, e nos finais de dia, não existe nem dia, nem noite, nem luz, nem penumbra.
Nos finais de dia existe acumulado o tempo e o poder da noite, existe a melancolia descansada no balouçar de uma cadeira, e o cheiro a flores na varanda de onde avisto o céu esmorecido.
Sinto as mãos e os pés mais grossos com a idade e, os invernos longe da aldeia já nem os lembro. Longe da terra que devora a minha mãe. Longe do meu país, sem pai, que no meu país se tornou esta cidade.
Oiço em murmúrio as ladainhas das poetisas que esperam que o mar lhes traga os seus filhos. Se não vier peixe não importa, que isso é dor deles, a dor delas é abraçar os seus filhos de mar.
Já é agora menos do que dia, a madrugada está mulher feita e bela. Vou adormecer antes que não tenha tempo para acordar.
Vou endireitar-me com a vida. Olhos nos olhos. Vou fazer as pazes com a terra ..."
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