Logo, voltarei
Sempre que a noite se renova na cidade saio do quarto onde o dia foi quase noite para mim. Em poucos metros quadrados, circulei todo o dia sem querer ver a luz. A noite, entreaberta, entra-me pela janela adentro. Saio.
Ao príncipe real, os mesmos pombos e a mesma senhora, têm infindáveis conversas de companhia, a troco de uns bagos amarelados de milho. As mulheres passeiam-se perfumadas para descer ao cais do Sodré. Vão vender amor em bocados de minutos e notas gastas de solidão. Há pessoas nas ruas em diversas direções. A família é sempre a noite.
Uns voltam. Outros estão. Outros procuram. Outros não. Outros sonham. Outros sim. Desço até ao Combro. As ruas estreitam. Não tenho janelas que alcancem o rio. O rio não tem apenas esta cidade.
Onde cresci, o mesmo rio, guarda os lábios primeiros em que adormeci. Guarda-os no sonho que velo até hoje. A minha pequena cidade já porventura não me reconhece. Faz mais de mil luas novas que não a vejo. À média de cinquenta e tal novas luas por ano, serão pelas mil luas a distância que me separa à cidade onde cresci, onde deixei os lábios primeiros em que adormeci.
Vagueio pela cidade na demente esperança que um dia voltarei a ver, aqui, tão longe, tudo o que velo e guardo, sem preocupada existência em que me tornei.
A luz espreita a madrugada. Volto para os meus metros quadrados, onde circulo todo o dia.
Logo, voltarei.
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