Abril de dois mil e dezanove sem Abril

dias tão tarde se fizeram poesia,


mais do que os dias,


mais do que vidas,


mais do que tudo sofrido e preso,


abril demorou e pouco se vê por aí,


e já se ouve que antes era melhor do que agora,


e os pretos e os brancos,


e os homossexuais e os outros,


e a diferença,


e a violência,


e abril mudo,


calado,


sem voz,


porque a esquerda já é moderada,


e a direita abençoada,


e as ideias já não sustentam os ideais,  


e os poetas já não se leem nos jornais,


e não há pão como havia na rua da padaria,


e apenas se ouvem roufenhos uivos do velho que morreu sem que abril se afinasse e transformasse em abril.


e se não foi,


já não será,


que todos estão reunidos na mesma mesa sem convite à liberdade.

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