Estranhando

És estranho disseste-me. Não te agradeci num tom firme, mas num silêncio estoirado no meu cérebro ecoou um obrigado, que se repetiu na alegria imensa da estranheza. Ouvi um obrigado, obrigado, obrigado em crescendo. Na verdade, estranho. Não sou estranho à minha estranheza acerca da vida e de outros temas oriundos da natureza humana, mas estranho bastante a falta de agilidade mental, estranho as mudanças súbitas de opinião sem consubstanciação analisada, estranho a intensidade do amor semanal na velha máxima que os anteriores não foram amores e que o desta semana é que é. Estranho a malévola maledicência e a incapacidade introspectiva, estranho a não relação intrapessoal, estranho a incapacidade de estar só, estranho-me tanto, e sim, estranho. Estranho as flores não serem reparadas, o mar ser moda. Estranho a falta de tempo e o desinteresse nos poetas fingidores. Estranho a as mulheres terem que se erguer pelo que devia ser adquirido à nascença. Estranho os homens justificados e os necessitados de reconhecimento narcísico. Estranho as crianças não serem crianças e os velhos serem séniores. Estranho tão e tão pouco, e do tão pouco que me é estranho, estranho tão pouco a normalidade da alegria desta estranheza.


 


Entendo o teu estranho sentir por mim.

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