Vindas da serra com o vento
Abri as mãos para que saíssem todas as palavras que não deixei chegarem à boca. Abri os pulsos como se diz. Os pulsos têm nas mãos palavras seguradas e por dizer.
Abri o peito para deixar sair as madrugadas. Em todas a últimas madrugadas adormeci sem me sentir vivo ou morto. Adormeci como se tivesse morrido, entristecido com a vida, desolado com as minhas mãos, peito e pulsos, cansado de me deter, cansado de me suster entre a vontade, o desejo e a essência que teimo em domar.
Recordo os frescos vales de água perfumada e as flores cristalinas da minha loucura feliz. Recordo-me em pedaços de tempo curto. Dou mil voltas ao meu corpo na cama onde o sono não vence o cansaço. Já pensei em todo o desamor que invento descendente do amor que procrastino.
Doem-me os pulsos das mãos cerradas de mim. Abro e fecho as mãos. Espreguiço os dedos. Aponto-me. Julgo-me. Aplico a pena que mereço. As noites continuam iguais, desertas, silenciosamente caladas, trituradas de gente ausente, desacompanhadas, frias e de tempo consumido, já sem veias onde injectar tanta solidão.
Num quase ciúme ávido de um - eu de outrora -, abro as mãos já dormentes para que saíam todas as palavras que não deixei chegarem à boca, vindas da serra com o vento.
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