Estória da cidade tentada

Não era uma cidade fácil para quem vinha de uma cidade de província onde as caras eram todas conhecidas e as vidas infinitamente sabidas. Ali ninguém sabia mais do que nada. As pessoas não tinham um nome por que se lhes chamasse, saíam cedo chegavam tarde com um ar abatido de quem não tinham sido visitados pela felicidade. Não foi uma cidade clara para mim nos meus primeiros meses.


Foram dias a regar com vinho a minha saudade e lágrimas, a esquecer-me da minha própria existência. As pessoas falavam pouco e quando falavam não as entendia, diziam nada que entendesse, pelo olhar lá íamos dizendo quase nada e, dizíamos isso mesmo, um quase nada de nada. Todos os dias me torturaram até ao último.


Voltei. Soube-me novamente a terra o cheiro desta cidade pequena de onde eu partira com nada, e voltava com a saudade acumulada, com o valor clandestino de ser apátrida em terra minha, de ter regressado com o mar solto de uma noite e uma escolha:


 - Antes a morte que uma vida morta – e assim cheguei. Vivo.  



 

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