A intempérie da morte
Uma bela canção de despedida ouve-se murmurada num som que se aproxima vivo com a morte depositada nos ombros dos homens que fazem jus à última viagem do amigo. Fim de tarde na cidade onde a noite mal cabe nas ruas, onde a claridade não cega de esperança os velhos que por ali debatem a vida das ruas estreitas.
As mulheres de olhos desnudados e corpo negro, carregam os filhos inquietamente enfadados.
Todos se preparam para a intempérie da morte ritualizada com o rigor do sofrimento de quem se junta à despedida de um corpo magro e doente, que não soube da sua própria existência para mais de setecentos dias atrás.
É um misto de recordação chorosa e saudade antecipada. As ruas ficam agora mais leves no regresso do adeus da separação.
Os velhos acocoram-se e ficam por ali murmurando recordação. As mulheres seguem o que lhes, por fortuna foi destinado. As crianças esperam a crescer. Da vida já nada se espera. Da morte espera-se tudo.
É o recobro da intempérie da morte.

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