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Quando as raízes se desprendem da terra mãe, existe vida.

Quando as raízes prendidas se desprendem da terra mãe, os sonhos alvitrados de alegorias e penumbra, nevoeiro e maresia, sucumbem no deserto que as alberga. A pele enrugada dos anos vividos, são a marca que exibo como um mapa geológico de minerais descritos, tendo cada ruga a sua pertença. De dentro da alma uma rusga prendeu-me as marcas que soltei das amarras. Desprendeu-se-me sem ordenação da matéria desprovida de sentido. Cristalizei todas as experiencias sensoriais que me fizeram ser, aquilo a que chamo somático, e banalizei todo o experimentalismo totalitário não abnegado e de improvável felicidade. A fortuna que carrego está representada no mapa lacrimejal não sustido de água, que deixo de quando em vez ser nascente sentida. O património é o que levo, não o que exibo. O dia de hoje não tem particular significado exibicional ou exposicional. O dia de hoje é retiro e pacatez, como uma ordem matemática ordinária e qualitativa, não é quantitativa de aferição de valores somados. O dia...

As palavras são adúlteras

Vi-me dez anos à frente e embriaguei-me. Cortei os pulsos e preparei uma forca na oliveira mais baixa e larga que habita o largo de Cardílium, às ruínas Romanas. É lá que falecerei. Poderei, eventualmente escolher tomar de uma forma intravenosa, uma droga qualquer que me aliene, misturada com uma que me devolva a paz. Felizmente, dez anos à frente são hoje. Dez anos à frente não existem. Ontem, não existe. Amanhã, ainda não existe. O hoje existe, é flácido e tem lastro. O fundamento é tão válido como a caça às bruxas, esse chavão nacionalista que incorpora a incompetência, e a invoca como uma oração, sempre que não “seja feito à sua vontade”. Estruturo o meu pensamento como se de lógica abstracta se trate. Esta dissonância disruptiva e cognitiva, desafina os acordes que piso na escala, faz do fado lamúria e das palavras acesas, Lisboa.   A nação. Composta por “poetas castrados”, grita um uníssono não veemente. O mais certo como forma de vida será a fome ou a prisão. A fome, porque a po...

Contentores natalicios

É o fim. Depois de ter encerrado os portões de acesso à planície, sentei-me na pedra do costume e passei os olhos pelas notícias da semana anterior, escritas no jornal da semana passada. Nada tinha mudado. Estranhei. Não havia nada de novo no meu País e o mundo estava pacatamente absorvido em teorias políticas ou económicas acerca da crise presente. Presente em mim, existe a crise normal que a normalidade já nem cataloga de crise, mas de realidade. Aproxima-se a época do ano mais hipócrita, insensata, despropositada e inútil. Nem penso nela. Melhor, não consigo não pensar nela. Espera-me mais uma noite só, acompanhado por um filme ou qualquer outra coisa que eu decida ter ou fazer. Comprova-se o que penso, pelo aspecto inóspito dos contentores do lixo na manhã seguinte. Abarrotados de comida, laços e papéis coloridos, deposita-se aí a festa. A importância da noite está reflectida no lixo do dia seguinte. Pagãos, hereges, ateus, cristãos ou outros quaisquer, depositam o impregnado espír...

Já é madrugada outra vez !...

Acordei a madrugada e levantei-me com ela. Tínhamos combinado escrever uma carta juntos, com as palavras que não me explodiram quando estiveste junto a mim. Com os socalcos de vontade que se desmoronaram na minha cabeça. Guardo as palavras para o próximo Fevereiro na Torre do Tombo. Estúpido. Estúpido é, como me sinto bastantes dias da minha vida. Bebemos café e foi-se embora.   Assim que saiu entrou a manhã. Vinha fresca. Tinha a frescura de quem tinha bem descansado. Enrolava nos lábios um sorriso mesclado de arte moderna que me faz lembrar, Amadeo Sousa Cardoso, esse pintor que necessito revisitar de tempos a tempos, esse homem que me dá cor às palavras, que entendo no seu traço. O teu olhar, carregava no entanto a crueldade descrita da pintura da Paula Rego. As tuas mãos. Não, os teus dedos. Esguios e habilidosos, são como os de uma estrela-do-mar, esse poema fingido do Jorge Palma. Gosto de ti, manhã. Tens sardas. Adoro mulheres com sardas. A minha mãe tem sardas. Mas isso não faz...

Desperdício

Desperdício é o suborno que a mente faz ao coração. O medo infundado a que cedo é tão-somente o ego que se dilacera numa estúpida e sem sentido grandiosidade. É a fuga inalterada e constante ao desconhecido, são as hipóteses adiadas e os beijos abraçados de plenitude e paz a que renego. Desperdício. Esse tempo que não se retêm, que se funde com o passado e não se glorifica no presente. O futuro é irrepetível porque é o passado no presente. Desperdício, esse vento de sul, que me empurra de mim antes de se separar de mim também. Não há ninguém que me queira tanto bem e mal quanto eu mesmo. Esta forma sádica a que por vezes me entrego, feita de sonhos simples e pensamentos elaborados tão distantes da minha própria imagem e essência, são o meu próprio inferno. O abraço adiado por falta de coragem ou a mão dada por falta de arrojo e bravura. Perco-me no turbilhão a que chamo complexidade mais do que complicação. Sou mais complexo do que complicado. Por vezes grávido de lucidez, travo comigo...

Sobriedade

Frio, perdido, luz ténue, Esperança baça, Devassa mente, Conspurcada, Alienada, Insatisfeita, Luz forte, Feito abraço, Contigo fiquei, Vida. Antes a morte que tal sorte, Se não pode alguém ser quem não é? Não vivo, Fugi, Antes de morto, Voltei costas ao destino, Reescrevi, Ressuscitado inventei, Pessoas, sorrisos, oceano de simplicidade, Se complicado não abundasse ser, O destino, Seis do doze de um ano por inventar? É hoje todos os anos.

A poesia é uma arma carregada de futuro

A poesia é uma arma carregada de futuro, já o foi no tempo da ditadura e do prec. Não o será tanto hoje, porque a surdez se generalizou. Mas os poetas estão aí, de armas carregadas de destino, neste país onde o fado se tornou património mundial. O que é o fado senão poesia arrastada. As palavras quando bem usados são caminho, sentimento, história, pergaminho, e futuro. Muito futuro. Quando a poetisa nos diz “que os outros se vendem mas tu não”, ou quando os poetas nos dizem ”ouvir de novo a tua voz seria matar a sede com água salgada”, ou simplesmente “ poeta castrado não”, isso não será premonição ou alerta? Futurologia ou confissão? Desafogo ou permissão? Liberdade ou pluralismo? A palavra é uma arma, esquecida e abandonada, mas que contem as respostas necessárias ao bem viver e ao viver bem. As palavras são combate e revolução, revindicação e direito. A poesia é a chave para o entendimento e a lucidez. A poesia está viva e vive na rua, não vive unificada, vive reunida nas cabeças do...