Cidade
As praças cheias de caras sem corpos, as temperaturas negativas de solidão e desamor, na temperada e amena Lisboa de outubro. Mulheres sem brilho, homens sem destino, tentam angariar compaixão em moedas recebidas na palma da mão em concha, de turistas de sorriso estupidamente iluminado de tejo e luz, vinda do outro lado do rio pelas gaivotas que trazem cacilheiros até à margem. Lisboa não é o cais das colunas com a bica a um euro e vinte e a carta do restaurante em inglês. Lisboa é um país dentro do meu país onde ha inverno dentro das pessoas, crianças que não vão há escola, homens a dormir na rua, mulheres esquecidas que são mulheres, juízes medievais, associações para tudo, petições para nada, e pessoas que ardem, enquanto em São Bento centenas de mentescapta promovem uma Lisboa que não existe, num país inexistente. Sentado num pedaço de chão que por ali sobra, relembro outra cidade, outros olhos, outro homem que por ali vagueou entristecido e invisível.