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Enchimento da lua

  Uma página construída por janelas que abrem horizontes de olhos pendurados no enchimento da lua...   Assim sendo, nos teus olhos, a janela do tempo emerge eterna...   Muito, é o encarceramento do tanto, e tanto é a libertação do muito…   Olho-te...   Espero-te no próximo quarto crescente com o meu amor cheio de luz da lua…   No teu bairro branco, as pombas arrulham no terreiro da saudade, e o teu peito farto é solidário com o afecto que encontro procurado...   Um barco não atraca em terra, um barco não existe num porto. Um barco é para navegar, naufragar, navegar, navegar, navegar...   Em cada naufrágio a bonança acena dos teus olhos quentes, coexistência do meu porto...   Não são as barcaças que existem nos portos, são os portos que existem nas barcaças, e assim se fez o mar, de lua e presença, de faróis que encaminham a minha alma, que me sustentam e seguram os olhos pendurados no enchimento da lua...

A paz só se altera se for demasiada

Quando respiro nevoeiro alcanço a silhueta que as arvores desenham no nascer do dia. A cada madrugada sou acordado por um bando de pássaros rumados de sul. Espreguiço-me encantado por um sorriso dado pela aurora do nascer do dia.   Durante anos a fio detive-me com os entardeceres, hoje, oxigeno-me com o nascer do dia e a força brutal do rompimento com a noite. Sinto que com o crescer da vida em anos, os anos modificaram o conteúdo dos dias. Passam por mim redutores sorrisos que sedutor guardo na minha algibeira para te enviar, como quando se mandam promessas azulados pelo tempo, ao lago dos milagres.   Está encarniçada a minha paixão, está em carne viva, por sarar.   Duas arvores à entrada da estreita estrada quase que se beijam, aproximando no seu cimo a folhagem entardecida, desenhando um V de vitoria. Está sossegada a paz quando existe a guerra. A paz só se altera se for demasiada.   Vou entretanto recolher o sabor do aroma a café que grita do velho fogão encardido pela lenha. Desfa...

Abraçamento

Em Gavinhos os homens grunhem em coro. Arrepiante. Soltam sons animalescos às fêmeas quando em grupo, e a sós roborizam nos seus pensamentos, como se eles fossem pecado, não compreendendo o quanto elas, gostariam de os saber. Pedem mais uma cerveja e soltam mais um grunhido de arroto, elas entristecem o sorriso, não abrangendo a fragilidade representada por esta falsa força, que os separam.   Elas gostariam de muito mais, eles também.   É uma questão simples que as palavras poderiam resolver nestes séculos passados.   O abraçamento também.

Prefácio

Inventei duzentas páginas de livro.   Um dia dar-lhes-ei o sol. São páginas grossas como farpas trabalhadeiras, feitas de dedos grossos de uma mulher do campo. São páginas desenfreadas e soltas, sem rumo, páginas de um devaneio desenfreado ateu e pagão. São páginas descontextualizadas de profusão profícua ou ambiciosa, encarceradas de ávidos indutores de sensibilidade (s). São páginas que não são páginas. São letras de lágrimas presentes, parágrafos passados de disfarçado humor, isentos de gargalhada, solícitos de metáforas e sorrisos. São letras mascaradas de montanhas e viagens circum-navegadas de emoções. São mentiras ditas como verdades, e verdades irreflectidas, inconvenientes e sérias.   Este é um livro de um constante soluçar de dias e agonia de noites indomadas. É um filho por parir com um pai por encontrar. É um livro desnascido e sem mãe. É um filho nascido de uma obra, sem graça nem desgraça, valendo pelo que não está descrito.   É tímido e tem átomos de cloreto com químicos...

Não te espero nem te aguardo

Não te espero nem te aguardo, Vivente, existo sem ti, Comigo serei o que sou, Contigo serei o que vi.   Das mil palavras usadas, Metade teriam bastado, Palavras simples e pequenas, Foram o fim anunciado,   Gosto de sofrer por amor, De reflectir antes de ter, De errar por acreditar, De perder por viver,   Sem medos, Não são cem, Numeral ou ordinal, Mas fazem a vida também.

Devemos evitar as pessoas que nos pisam os sonhos

Devemos evitar as pessoas que nos pisam os sonhos.   Concordo, acedi.   Mas os sonhos podem ser esmagados?   Claro que podem. Quando te escurecem a luz, e te pressionam a não seres tu mesmo, pela idílica ilusão de acharem que conseguem fazer com que tu sejas alguém que não és, estão numa desenfreada tentativa de castração dos teus sonhos.   Quando te vestem, despem, opinam, aconselham, insinuam, sugestionam, emudecem, tagarelam, e usam muito a palavra “não” e a expressão “eu sei”, acautela-te, porque daí advém o esforço de aniquilamento dos teus sonhos.   Concordo, voltei a aceder.   Quando de ti e em ti se faz noite sem razão aparente e fora de tempo, reflecte. Usa a tua viagem e regressa a ti, regressa sem teres que voltar, fica no teu tempo, na tua vida, no teu património, ensurdece e voa, abraça-te e põe-te em guarda, que a prisão está mesmo ao teu lado de grades abertas para te encarcerar, naquilo que tu não és. Se não sentes, não digas nada e vai. O teu sonho está sempre em abert...

Desunido

Não quero que me compreendas ou discutas, Quero apenas que me albergues o silêncio, e me deixes navegar a minha rota, Que me deixes sentir o luar, sem teres que entender na lua o sentido que entendo sentindo, Quero que me deixes entrar pelas tempestades adentro e voltar delas por mim.   Não quero que me compreendas ou discutas, Quando estou, sem sentires que estou, Quando as noites me chamam para um mundo diferente do teu, Quando escuto vozes ou, questiono existir desta forma.   Não quero que me compreendas ou discutas, Quando não sinto tristeza com a partida do verão, e júbilo o regressado Outono, Quando o cheiro a terra molhada me excita numa configuração sensual, Quando sou mais desperto a isto, do que a outra substância qualquer.   Não quero que me compreendas ou discutas, Te identifiques ou julgues, Que sofras ou te alegres, Por eu ser assim, aparentando ser, desunido e alheado.   Jamais quero que me compreendas ou discutas …