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Depois do espectaculo ... regressado

Cidade claustrofobica. Alucino e vejo os prédios dançarem como se a cidade fosse uma pista de um salão de dança. As pessoas passeiam-se vidradas sem reparar que existem. Cheira a fumo. Os carros parecem-me bólides na imobilidade da cidade. Tudo liquidado numa velocidade estonteante. O horizonte não existe. A noite cai. A cidade fica com uma emancipada normalidade. As pessoas ressuscitam e tornam-se expressão. A noite tem esse encanto mesmo na cidade. Encanta-se de vida. A ponte acende-se. Iluminada fica reparável aos meus olhos, bem como os barcos que povoam o rio. Os bares berram embriagados e roucos. O fumo excitado salta ao som de uma batida que não sendo a minha já o foi. Reconheço-as. Os corpos ausentam-se da alma numa volátil sedução. Bandos de gaiatos escrevem pergaminhos na relva onde se rebolam. A cidade é apertada para mim. Salpicam monumentos e espectáculos que é o que me faz habitá-la. Adoro a estrada que me traz, de um regresso atempado e premeditado. A cidade agrada-me. A...

Sempre, se, e as suplicas

Sempre a duvidar, Se o tempo vai mudar, Se a razão vai amanhecer, Com a noite a expirar, Se os astros vão virar, E o meu ente ser ou estar.   Se a mentira triunfar, A verdade se exilará, Se os poemas marejarem, Será mais praia que mar, As súplicas cantarão, Nas vagas a madrugar.   Se o nome que gravei, Terá a palavra amar, Quando eu partir ou morrer, Deixarei critério e obra, E o meu peito a arder, De adjectivo e boa nova.

É como um filho :-)

Giestas perfumadas barram-me o caminho. Rastejo e passo para o outro lado. Arranho-me de querer. Desta força faço a luta que travo no meu caminho. Mais lutador que guerreiro, ergo-me de cada vez que rastejo. As papoilas lilases acariciam-me a face e retrocedem no meu tempo. Ao longe o trigo baila com o vento. Vejo o pó da terra levantado pelo um arado que trata a lezíria. As cegonhas altaneiras observam-me. Sinto-me pequeno mas robusto. Tenho uma planície minha, só e sem companhia. O céu escurece, leio nele uma mensagem. Oiço as palavras balbucionadas pelo vento que gravo e penso em escrever. O veneno da solidão quando acaba transforma-se em força e lucidez. Não escrevo multidões cheias de nada, escrevo muito mais solidões cheias de tudo. Uma mão cheia de tudo é nada e uma cheia de nada é farta. A urbe mata-me. O campo renasce-me. Lugares comuns empobrecem-me, os não triviais enriquecem-me. No fundo as escolhas são actos não pensados, são muito mais caminhados que decididos. Não existe...

2004

Diz-me só mais uma vez o que não quero ouvir, Diz-me se existe em ti o medo de mim, Diz-me se as minhas duvidas, São fatais, Diz-me se a noite em mim já não o é mais.   Diz-me só por dizer o que pensa a lua, Diz-me o que vês no sol a cair no mar, Diz-me o que vês em mim ao despertar, Diz-me só mais esta vez como a madrugada, Diz-me no abraço seguro da alvorada.   Diz-me se é meu e teu o anoitecer, Diz-me e dá-me o alimento de o poder ser, Diz-me meu amor somente, Mais do que as palavras, Diz-me com a tua boca de sabor água.

Despeço-me assim !...

Barcos pequenos e embaciados pela distância alcançada dos meus olhos bolinam soprados pelo vento do mar lá longe. O meu pensamento inventa na extensão de lá aparecer, uma história de partida mais que chegada. Na verdade sou muito mais partida do que chegada. As partidas desde miúdo que me fazem chorar. Não gosto de partidas. Detesto o hino da despedida.   Ainda mal conhecido de mim próprio e acerca do que me move, reconhecia já o desconhecimento deste choro aguçado, frio e cruel da saudade. Senti sempre o choro da despedida antes do abraço final. Cheirava-me a despedida logo pela manhã, na preparação dos cozinhados mais elaborados, dos doces ou na toalha de mesa retirada da arca raramente. Da toalha “anaftalinada” e amofinada.   Despedidas? Ainda hoje não as frequento. Prefiro desaparecer a despedir-me. Uma despedida tem em mim o dom de me ensanguentar a alma. De sentir uma dor no peito como se um punhal se me cravasse nele. Um nó na garganta tamanho do sentir de um enforcado. Um peso ...

Partícula

Partículas de um amor querido misturam-se nesta época em que o pólen é agressivo e forte. Isso não faz com que o amor seja pacificamente brutal ou sentido. O amor por si só já o é. O oferecimento que faz da vida e da morte cruel e fantástica, divina e sublime, agastada e conquistada é um carrossel, uma montanha russa ou o poço da morte. É divertimento e alegria, tristeza, angústia e medo. É morrer de cada vez que se ama e nascer de cada vez que se pára de amar e nos reencontramos. É equilíbrio e obsessão, vontade e fuga. É voltar a virar as molduras que estavam deitadas de face para baixo e erguermo-nos das noites claras pensadas em branco. É voltar a sentir o orgasmo das palavras, o prolongamento dos acordes, fazer melodia com a presença das palavras. O amor é um inferno que vale bem a pena. O céu é uma pena por cumprir. O amor de final feliz, é o desencontro desencantado com o acreditar na oportunidade de conhecer um amor mais afortunado ainda. O amor é diário e recorrente.   Do alto...

Este rio feito de veias

Rasgo com as minhas próprias mãos o meu peito e arranco-me o coração. Maldito coração que me atraiçoa diariamente. Corro para o rio que atravessa o castelo da minha cidade e da ponte não me jogo ainda. Jogo na corrente abundante o ensanguentado órgão que detenho nas mãos, ainda vivo e soluçante. A água torna-se encarniçada, volúvel e absurda. Esta é a cor da miséria que a água não lava. Assim desta forma purifico um corpo gasto e sujo pelo trabalho que dá viver sem nexo e rumo. Sem ouvir e ser ouvido. Os excessos constantes atenuam a culpa que dorme na cabeceira do meu sono. Já não sonho. Nem a dormir nem acordado. Já não sonho. Foram-se os sonhos com os pássaros. Vazaram com a maré na enseada. Zango-me com os milhões de motivos que me fazem arrancar o coração e deitá-lo fora, assim, sem hesitar, na corrente avassaladora do rio que faz de enxurrada a minha vida. Vai de mim mais que palavras. Vai de mim o sujo das palavras que ouvi, das camas onde dormi e do nojo, da esperança, das pess...